Esse não foi publicado do jeito que veio ao mundo porque, segundo o editor, estava muito pesado, carregado e truncado. Me envolvi demais com o livro, ele diagnosticou.
Escrevi no meio de setembro.
Pra continuar no drama: uma mãe não questiona o filho tortinho, põe no mundo e acabou. Ei-lo, tortinho e tudo o mais. Quem ama o feio, so wonderful lhe parece.
De mágoas a muralhas
Premiado em contos, o escritor Menalton Braff faz um paralelo entre as barreiras que o homem constrói dentro de si e as fronteiras da humanidade, no romance A Muralha de Adriano
Por Simei Morais
Pelo menos três idéias perseguiram Menalton Braff por mais de década, pediram para virar livros. Duas resultaram em Castelos de Papel e Que Enchente Me Carrega?. Ele diz que quando a história vem, germina, se enriquece, agrega detalhes que não foram observados ainda. Se estiver na estrada, por exemplo, a condução do veículo não é impedimento para que a personagem deixe de visitá-lo. Pára o carro para resolver a questão do lampejo.
- Até que chega uma hora que atrapalha, confunde tanto a história com sua vida, que você tem que escrever.
A terceira idéia que alcançou Braff virou A Muralha de Adriano.
- É uma angústia muito grande, me sinto sufocado no mundo, afirma.
Refere-se aos impérios. E a angústia é maior porque ele está num país que estaciona na condição de periferia do império contemporâneo. E como prerrogativa imperial clássica, os muros se agigantam sem licença – ética ou poética – em territórios diversos. Isso é coisa de imperialismo.
São muros de todas as idades, tamanhos, extensões, idiomas. Todos muito firmes. Estão nos condomínios, na fronteira do México com os Estados Unidos, entre palestinos e israelenses. Quase esteve no Brasil, quando o governo do Rio de Janeiro, há três anos, quis murar as favelas, separando o mundo do morro da cidade maravilhosa.
A publicidade mostra bem isso, aponta Braff, destacando um recente comercial de carro importado em que tudo lá fora é caos, mas dentro do luxuoso sedã, “it’s fine”.
- Se eu me isolar, vou viver bem, prega o império.
Não poderia ter melhor ator para o filme de 30 segundos, senão o talentoso Kiefer Sutherland, intérprete de Jack Bauer, o agente que usa de tortura para preservar a América, na mundialmente famosa série 24 Horas.
- A maioria engole sem perceber que é droga, isso que me sufoca. Essa é a sociedade do consumo e do medo, uma cultura que estratifica cada vez mais a sociedade, desabafa o escritor gaúcho, radicado na pequena Serrana, ao lado de Ribeirão.
A falta de ar durou tanto que deu tempo de Braff escrever À Sombra do Cipreste, que levou o prêmio maior da literatura brasileira, em 2000, o Jabuti. Vieram ainda A Coleira no Pescoço, mais outro livro de contos e uma novela infanto-juvenil, que estão por publicar. Perseguição já alta, eis a questão: os impérios são eternos?
- Se fossem, o sufoco seria tão grande que o caminho seria o suicídio. A vida tem esperança porque o império não é eterno, afirma Braff.
Foram quase quatro anos escrevendo A Muralha de Adriano, desta vez, romance. O título é alusão ao monte de pedras que limitava o Império Romano, no século 2, numa linha que hoje é entre a Inglaterra e a Escócia.
Havia um tema, e ao esboçar o enredo, o autor criou personagens que vivem toda essa concepção de império e muros.
Em A Muralha, Braff transpõe, com sofrimento competente e rascante, as contradições das muralhas do mundo externo e macro, para as agruras indiscutíveis e perversas do interno.
- Essa angústia fica nas relações das personagens, nada de mim aparece, avisa Braff.
A angústia dilui-se no romance, até porque, se fosse dita, explícita, tornaria-se tese, pondera o autor. Apenas em um momento do livro o tema faz paralelos à sociedade globalizada sob a égide de um império e suas muralhas. É quando o historiador Mateus, uma das principais personagens, escreve artigos de jornal.
Por causa do incômodo, Braff estudou tudo quanto é império que já existiu. Queria entender os mecanismos, formação e declínio.
- Tive que ler Hobsbawn, os quatro imensos volumes de Ascensão e Queda do Terceiro Reich, o império português das navegações, e um enorme clássico sobre o império Romano, entre outros, enumera o escritor.
Em A Muralha, uma rede de supermercados é símbolo do império. Parece que, além do sujeito, os objetos, são, na verdade, pessoas.
Personagens encerrados em labirintos, sem muitas opções de movimentos. Uma angústia sem fim anunciada desde a tenra idade, para Verônica. Uma sentença de solidão para o pai, Tiago. Dois casos de morte, avareza, corrupção e incesto ainda permeiam a história de uma típica família “de tradição”, do interior.
- O homem solidário, a concepção de sociedade solidária, desapareceu. Hoje o homem é concorrente, é o homem em confronto com o homem, analisa Braff, sobre a angústia refletida na privacidade daquela família.
Lembra que o dominado passa a agir de acordo com a lógica do dominante. Nesses corredores estreitos entre as muralhas das personagens, em narrativa não linear, Braff sofreu. Passou capítulos inteiros às lágrimas, como os do doutorado de Mateus na Inglaterra, ao lado da mulher.
- Eles pulam a muralha, simbolicamente, superando barreiras, mas um deles acaba morrendo. Escrevi a passagem toda chorando. Escrever esse negócio demorou, não conseguia fazer mais do que um parágrafo por dia, revela.
Elas, as personagens, não são mais ficção, e estão na cabeça do autor. Ele se afeiçoa a todas e não as julga, como um pai, um criador.
- Ninguém é mocinho ou bandido, estimo por todos, são seres humanos. O bem e o mal habitam em todos, infelizmente alguns não sabem dominar o mal, justifica.
Braff fez essa literatura para sobreviver ao império.
O livro é findo, mas o lançamento traz a angústia de volta, diz o autor.- Ainda está cedo para saber se me livrei, mas a tensão psicológica dela já acabou, declara.
08/10/07
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