Artistas do sinal fechado
Simei Morais, agosto de 2007
O sinal fecha e um outro vermelho ilumina pontos da avenida Nove de Julho com a Presidente Vargas. O rapaz magro de cabelo sarará corre ao centro, na frente da fila de carros, e risca um ferro no chão, como se multiplicasse o fogo. Toca as pontas de algodão de dois bastões no braseiro instantâneo, e começa as tripulias.
Esse é Luciano Santos, de 25 anos, nascido em João Pinheiro-MG, e rodado em quase todos os estados. Aprendeu malabarismo em Santa Catarina, há 6 anos. Há dois meses trabalha com fogo nos cruzamentos de avenidas, em Ribeirão. Faz parceria com Cristian Valensuela, de 27 anos, argentino de Missiones.
A vida deles passa nos faróis, em intervalos de 45 segundos. Nos cinco últimos segundos, apagam os bastões e passeiam entre os veículos. Vez em quando, a janela se abre para saltar um troco à mão. Agradecem mesmo quando nada vem.
“O melhor é ouvir uma palavra que te anima, põe pra cima”, garante Cristian. De uma educação quase aristocrática, o mambembe argentino fala cadenciado, num tom de voz comedido. Fazia enfermagem numa universidade quando “coisas da vida” o fizeram abandonar os estudos.
Don Juan
Resolveu fazer escola de circo, em Buenos Aires, há 7 anos, pouco tempo antes de vir para o Brasil. Nem sob insistência ele fala sobre os motivos que o trouxeram para cá. “Só volto para meu país para votar”, diz, evidenciando a politização pela qual os argentinos são conhecidos.
Tem elegância, o rapaz de cavanhaque. Tempo desses, foi trocar as moedas no caixa de uma farmácia da redondeza e apaixonou uma brasileira. Estão namorando, e a moça é razão por que o mambembe já está há nove meses na cidade.
Vavá
É a vez de Cristian fazer malabarismos, e Luciano aproveita o verde do semáforo para guardar os trocos e embeber os bastões na gasolina, num copo plástico de refrigerante.
Tem gingado até na voz, rouca e nasalada. O andar dele não se sustenta, balança diante de tanta magreza travestida de malandragem. O brasileiro é pura simpatia. Diz que não vence “atender” as patricinhas que param o carro para ele entrar. Vão dar um “rolê”, para as meninas se divertir.
“Pergunto o que elas vêem em mim, e elas dizem que eu tenho cheiro de homem, que estão cansadas de perfume importado”, gaba-se. O moço corresponde, solta a lábia no ouvido delas. “Digo que são lindas, que não tem mulher mais macia que elas. Tem que ser palavra doce, coisa verdadeira”, revela.
Mas ele não gosta só das meninas. Antes de se fixar em Ribeirão, Luciano passava, de viagem, pela cidade. Sempre gostou do “astral” local, mas se encantou com os moradores depois que ficou de vez, e ganhou os cruzamentos. “O povo daqui é muito humilde, muito gente, te recebe aberto”, conta.
Malabares
Outros 45 segundos começam. Os pensamentos dos motoristas nem precisam estar ali, mas ninguém tira os olhos do fogo ligeiro. Os bastões vão para o alto e, na queda, deslizam sobre os músculos magros do moço. Um suor cor de cinza tinge o rosto dele, a cada volta dos malabares.
Esse está sendo um dia médio. Num dia bom, chegam a tirar 50 ou 60 reais – em raves, cobram 70, por hora. O negócio vai mal quando levam 20 reais para casa, ou melhor, para o hotel.
Os dois moram num hotel do centro, próximo à Praça 15. E 15 reais são a diária que pagam, com direito a café da manhã. “Quando agente acorda no horário do café”, brinca Cristian.
Eles trabalham hoje para comer amanhã. “Pagar as responsabilidades”, recita Cristian, com um carregado sotaque. Não é raro passarem o dia com apenas uma boa refeição, feita à base de descontos num restaurante de comida a quilo.
O cruzamento de ruas que mais rende dinheiro para a féria dos malabaristas é na João Fiúza. Mas isso não quer dizer que seja o local preferido deles.
Se o dia é bom ou ruim, nem só a habilidade com os bastões influencia. O ânimo é a chave do negócio. Quando o rosto está festivo, eles contagiam mais os motoristas, explica o argentino.
“Por isso o mais importante não é mesmo o dinheiro. O melhor é quando alguém passa e diz ‘cara, continue, você é artista’”, relata.O clic do semáforo, audível aos pedestres, anuncia novo intervalo na jornada de Luciano e Cristian. Enquanto o fluxo dos carros pára, eles ostentam as habilidades inflamáveis. Mostram-se artistas, sob o mesmo formato livre que Shakespeare também atuava, como mambembe, antes de seus escritos ficarem famosos. Quando as máquinas voltam a rugir suas potências, os dois se resignam ao rescaldo dos malabares.
12/10/07
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