11/06/08

Sol nascente no primeiro dia do ano

Publicado em 06 de janeiro de 2008

Além do nome, que é indígena, nada em Mombuca parece brasileiro. O bairro rural de Guatapará remete aos remotos campos do Japão, daqueles que se vêem em filmes.
Em meio a plantações diversas, flores de lótus denunciam a presença de orientais. Mas é do portão das propriedades para dentro que se tem certeza disso. Às nove da manhã do dia primeiro de janeiro, as famílias estão acordadas há horas. O dia será cheio. Antes do almoço, serão duas celebrações que quase não existem no país. Uma em casa, outra na Associação Agro-Cultural e Esportiva.

Ano novo
Na casa dos Kobayashi, mãe e filhas preparam a refeição especial para o shoogatsu, a comemoração do ano novo. É uma casa bem ao estilo japonês, com alguns quartos de tábua, e cama no chão.
Os preparados de legumes e algas já estão dispostos como manda a tradição: em grupos de cinco ou sete variedades. “Nunca quatro, porque esse número, o shi, também significa morte”, explica Satoe, de 30 anos, a filha mais velha. Há 13 anos no Japão, chegou faz poucos dias.
Depois de servido o saquê, uma prece e algumas palavras de seu Toshikazu, pai de Satoe, dão boas vindas ao novo ano e desejam sorte. “Minha família não faz essa cerimônia. Na minha rua, só têm duas famílias japonesas, não temos esse contato como aqui, é tudo misturado”, compara o paulistano Michael Adeaniya, de 30 anos, namorado de Katsue, a mais nova.
Descendente de japoneses, só aprendeu a língua dos antepassados nos oito anos em que morou no Japão. “Aqui eles já aprenderam desde cedo, antes da escola”, diz. “É bom manter esses costumes. Ajuda a disciplinar”.

Maioridade
Seu Hastoshi, o avô, de 91 anos, faz sinal de agradecimento com as mãos e levanta-se. Ele, o filho e a nora, Toshiko, se apressam. Vão à associação, onde ocorrerá o seijinshiki, a cerimônia de maioridade. Para os japoneses, ela chega aos 20 anos. Nove jovens, entre moços e moças, serão apresentados à comunidade em sua maioridade.
As meninas usam quimono e os meninos se enfiam garbosos em ternos e gravatas.
Um século depois da vinda do Kasato Maru, o primeiro navio com imigrantes japoneses, o seijinshiki é raro em terras brasileiras.
No Japão, onde é comemorado na segunda semana de janeiro, os jovens não o levam com tanta seriedade, conta Satoe. Mas, em Mombuca, o rito é seguido à risca. “Todo mundo espera que a gente faça. Os jovens também gostam”, assegura Catarina Saito, de 20 anos. Uma das moças da cerimônia é loira, de olhos claros. “É casada com um japonês”, explica Kizuki Nitta, vice-presidente da associação.
A maioria dos jovens de Mombuca é da primeira geração de suas famílias a nascer no Brasil. A colônia surgiu em 1962, numa iniciativa do governo japonês. Os mais velhos se instalaram por aqui quase na “maioridade”, como Toshikazu, que chegou com 19 anos, em 1963. “Fomos a 14ª família da colônia”.
Realizar o seijinshiki, assim como as atividades frugais do dia-a-dia, não é resgate de tradições. Em Mombuca, tudo é feito como se estivessem no Japão. “Lá nós também mexíamos com lavoura”, diz Toshikazu.
Sônia e Noboru Watanabe moram em Fuji há dois anos e meio. Vieram para o Brasil só para o evento. “É especial porque é a única filha, e é coisa aqui de Mombuca”, justifica Noboru.

Futuro
As crianças de Mombuca aprendem japonês antes do português. Mas a língua não é garantia de que permaneçam na colônia quando mais velhos. “Saber japonês ajudou muito, lá no Japão”, diz Satoe.
Um terço dos jovens adultos do local se tornaram dekasseguis. “Falta gente até para as atividades coletivas. Mas os jovens acham que lá é mais chique”, brinca Toshikazu, cujos quatro filhos já moraram em seu país. Dois ainda continuam no Brasil.

Samurai, guarda-costa de Hirohito e amante do Brasil
O seijinshiki não termina com a apresentação dos jovens de 20 anos. A cerimônia só está completa com a homenagem aos membros da comunidade que fizeram 90 anos. Os idosos têm lugar de destaque. O segundo homem mais velho da colônia é Hatoshi Kobayashi, de 91 anos.
Seu Hatoshi lê diariamente. Muitos de seus livros abordam histórias de samurais. Ele mesmo descente desses lendários homens que serviam a seus senhores. Os samurais deixaram de existir como classe social no século 19. Ri quando questiono se a postura de um samurai seria exemplo nos dias de hoje.
“Para conseguir sucesso como samurai, hoje, seria muito difícil”, responde. Hatoshi não fala português. Conversa com a repórter por intermédio da nora Toshiko. Pede a ela que me pergunte se sei da guerra que o Japão travou com os Estados Unidos, na Segunda Guerra. Hesito em falar de Hiroxima, arrisco, então, sobre o ataque a Pearl Harbor, em 1941. Ele balança a cabeça, firme.
Hatoshi era oficial da Marinha. Lutou desde a invasão à China, que teve início em 1937. Vivendo em alto mar, enviava o salário à esposa, Kimiko, que ficara em Nagano. Trocavam cartas, eram assuntos curtos e objetivos, como “está tudo bem”. Ele normalmente era destacado como guarda-costa de Hirohito, quando o imperador visitava os navios de guerra.
De tudo o que viveu, diz que a educação é que muda o mundo. “Desejo que estudem os antepassados e tirem coisas boas para si”. Hatoshi me pergunta o que acho de seu povo. Aponto disciplina e persistência, entre tantos aspectos admiráveis. “Estou vendo que o Brasil ainda será o primeiro do mundo, e tenho orgulho de estar aqui”.

http://www.jornalacidade.com.br/noticias/62852/sol-nascente-no-primeiro-dia-do-ano.html

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