30/07/08

Delinqüentes e os sem dentes

Tinham infantis 1,30m cada um, não mais que isso. Uns 13 anos, cada, segundo os parentes de um deles, que acompanhavam. Os familiares do outro não apareceram. Saíram do camburão, com as mãozinhas pra trás, em dupla, atrás de outros dois que exibiam tamanho de adolescente.

O pessoal do Ministério Público está acostumado a ver moleque com pecha de delinqüente, mas não deixou de comentar.

“Ó o tamanho, vê só. Vejo sempre, isso, mas não me conformo”, disse o guarda mais velho, também o mais robusto, que tem cara de insuspeito senhor. Preto.

Disse que tem muito menino que pede pra ir “pra lá”, pra Febem – o nome ainda é o usual, mesmo tendo mudado para (ironicamente) Casa.

“No ‘xiribum’ em que moram, quase nunca têm as coisas, a mãe tá fora, trabalhando, a irmã não fez comida. Não tem pai em casa, vai encontrar pai na rua. Na rua, sempre tem um pai pras coisas erradas”, explica, firme e ternal. Vai ver ele é pai. Ou não teve um, um dia. Sabe ver bem, essa coisa de faltar alguma coisa.

O senhor guarda, e preto, sabe bem das ruas, das quebradas. “Já não vão trabalhar, porque o ‘sistema’ não deixa”, complementa. O sistema ferra mesmo o pobre, dou linha.

“Acha que não vão aceitar R$ 100 pra levar alguma coisa pro cara noutro lugar? Quando é que vão ter uma nota dessa?”, emenda o polícia, ajeitando os primeiros fios brancos debaixo do quepe.

Responde que já ouviu isso da boca deles, inclusive da intenção de se mandar pra Febem. Ter comida em horários certos, se ver livre do inferno que é no barraco, diz.

O promotor passa, cheio de pastas, apressado. “Oi, tudo bem?”, sorri pra mim, freando o passo ritmado. Todos me olham, os meninos algemados também. Retorno o cumprimento gentil e digo para ficar à vontade, reparando na ante-sala lotada, à espera dele.

O doutor manda os menores entrarem na sala. A mãe de um vai também, com bebê no colo. Os tios ficam de fora. “Sumiram ontem à noite, a gente foi procurar eles hoje, lá no NAI (Núcleo de Atendimento Integrado, pra onde vão primeiro), e aí já soube que tavam vindo pra cá”, contam. Chegaram junto com a viatura.

Ao que parece, os maiores não estão ali pela primeira vez. “Nem sei o que eles, os pequenos, fizeram, se estavam todos juntos. A gente vai saber agora”, confessam os parentes.

“Moça, moça, pode entrar. O doutor está te esperando”, me chama o outro guarda, mais jovem. Sigo para a pauta noutra promotoria, sobre a fila de mais de 6 mil que aguardam próteses dentárias do serviço público. O promotor que entrevisto investiga o caso e pressiona o governo para comprar dentaduras e pontes. Os pais daqueles meninos, será que eles têm dentes?

1 comentários:

A Coisa disse...

simeiii... segue meu blog tbm.. parabéns proibidona.. huauhahuahua

www.lucasarantes.wordpress.com