06/08/08

A noite das sereias do Boulevard

Estacionou o carro na avenida Nove de Julho e subiu o quarteirão tilintando o salto fino, até a João Penteado. Tinha balanço no andar. Além do rebolado, mexia a cabeleira loira bem tratada. Era quarta-feira, dez da noite, e estava começando o ponto do travesti, no Boulevard, área central de Ribeirão.

"Não posso falar, meu pai é militar", desculpa-se Gabriela, 21, quando a reportagem se aproxima. Mas deixa escapar que o caso do travesti Andréia Albertini, a mesma do escândalo do Ronaldinho, tumultuou o lugar, e ninguém queria falar com a imprensa.

Recém-chegado do Rio de Janeiro, o travesti se envolveu em ocorrência policial com um médico, há pouco mais de uma semana. "Ela (a Ronaldinha) roubou o cliente, fez coisa errada, não era pra ficar aqui", sentencia.

De repente, Gabriela bate-boca com um rapaz de cabelo comprido que passa na outra calçada. Diz que dá em cima de seu marido, um garoto de programa do centro, quando ele a busca no Boulevard. "Essa daí não é nem travesti, não tem peito. Já pegou ‘Aids’ porque não usa camisinha", reclama, finalmente engatando a conversa.

O corpão turbinado é trabalhado desde os 15 anos. Tem prótese cirúrgica nas nádegas, e o peito cresceu à base de hormônio injetável, o mesmo que afina pele e inibe barba.

Toda produzida, diz que às vezes tem quem pergunte se é homem ou mulher. Fala que é Kinder Ovo. "Venho com um brinquedinho", brinca. "Eles têm a fantasia de transar com um homem com cara e vestido de mulher. É fetiche, né?".

A maioria dos clientes, diz, faz o programa como passivo. O preço varia de acordo com o serviço, partindo de R$ 30, o sexo oral. "Ontem ganhei R$ 280 num só programa; chego a tirar R$ 4 mil no mês".

O rendimento maior que o do marido causa estresse no casal, vez ou outra. Diz que pretendem deixar a "vida nas ruas" e abrir negócio próprio. "Podemos até comprar enxoval em Ibitinga e vender na rua. Muita gente ganha a vida assim".

O ciúme é outra pedra no relacionamento de mais de um ano. Conta que o marido detesta suas roupas curtas e os decotes, e tira da bolsinha de mão um micro-vestido que mais parece uma blusinha. "Trouxe pra colocar aqui, sem ele ver", confessa, mexendo a mão esquerda, em que usa aliança. O marido não põe o anel, mas tatuou o nome "dela" no braço.

Pergunto se têm planos de adoção de filhos, já que a Justiça não nega mais esse direito a casais gays. "Imagina, já tenho uma", rebate. A criança tem oito anos, fruto da única transa com uma mulher, aos 13 anos. Mora com o avô, a quem chama de pai. "Ela me chama de irmão", diz, na única vez em que se refere a si no masculino.


FOTO: JOYCE CURY (http://www.flickr.com/photos/jobafoto)

(A versão "editada" do texto foi publicada em 03/ago/08, no jornal A Cidade: http://www.jornalacidade.com.br/noticias/70559/a-noite-das-sereias-do-boulevard.html)

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