Casão e casebre em favelas de Ribeirão Preto. A primeira, com quatro amplos quartos, TV por assinatura e piscina, é uma república de travestis. No segundo, um barraco de madeira, residem um pai, uma mãe e três filhos. Ou melhor, um filho, adolescente. A matéria já tinha saído quando o conselho tutelar levou os dois pequenos da dona da casa.
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/66072/‘republica’-de-travestis-na-favela-tem-ate-piscina.html
Publicado em 06 de abril de 2008
17/06/08
11/06/08
Sol nascente no primeiro dia do ano
Publicado em 06 de janeiro de 2008
Além do nome, que é indígena, nada em Mombuca parece brasileiro. O bairro rural de Guatapará remete aos remotos campos do Japão, daqueles que se vêem em filmes.
Em meio a plantações diversas, flores de lótus denunciam a presença de orientais. Mas é do portão das propriedades para dentro que se tem certeza disso. Às nove da manhã do dia primeiro de janeiro, as famílias estão acordadas há horas. O dia será cheio. Antes do almoço, serão duas celebrações que quase não existem no país. Uma em casa, outra na Associação Agro-Cultural e Esportiva.
Ano novo
Na casa dos Kobayashi, mãe e filhas preparam a refeição especial para o shoogatsu, a comemoração do ano novo. É uma casa bem ao estilo japonês, com alguns quartos de tábua, e cama no chão.
Os preparados de legumes e algas já estão dispostos como manda a tradição: em grupos de cinco ou sete variedades. “Nunca quatro, porque esse número, o shi, também significa morte”, explica Satoe, de 30 anos, a filha mais velha. Há 13 anos no Japão, chegou faz poucos dias.
Depois de servido o saquê, uma prece e algumas palavras de seu Toshikazu, pai de Satoe, dão boas vindas ao novo ano e desejam sorte. “Minha família não faz essa cerimônia. Na minha rua, só têm duas famílias japonesas, não temos esse contato como aqui, é tudo misturado”, compara o paulistano Michael Adeaniya, de 30 anos, namorado de Katsue, a mais nova.
Descendente de japoneses, só aprendeu a língua dos antepassados nos oito anos em que morou no Japão. “Aqui eles já aprenderam desde cedo, antes da escola”, diz. “É bom manter esses costumes. Ajuda a disciplinar”.
Maioridade
Seu Hastoshi, o avô, de 91 anos, faz sinal de agradecimento com as mãos e levanta-se. Ele, o filho e a nora, Toshiko, se apressam. Vão à associação, onde ocorrerá o seijinshiki, a cerimônia de maioridade. Para os japoneses, ela chega aos 20 anos. Nove jovens, entre moços e moças, serão apresentados à comunidade em sua maioridade.
As meninas usam quimono e os meninos se enfiam garbosos em ternos e gravatas.
Um século depois da vinda do Kasato Maru, o primeiro navio com imigrantes japoneses, o seijinshiki é raro em terras brasileiras.
No Japão, onde é comemorado na segunda semana de janeiro, os jovens não o levam com tanta seriedade, conta Satoe. Mas, em Mombuca, o rito é seguido à risca. “Todo mundo espera que a gente faça. Os jovens também gostam”, assegura Catarina Saito, de 20 anos. Uma das moças da cerimônia é loira, de olhos claros. “É casada com um japonês”, explica Kizuki Nitta, vice-presidente da associação.
A maioria dos jovens de Mombuca é da primeira geração de suas famílias a nascer no Brasil. A colônia surgiu em 1962, numa iniciativa do governo japonês. Os mais velhos se instalaram por aqui quase na “maioridade”, como Toshikazu, que chegou com 19 anos, em 1963. “Fomos a 14ª família da colônia”.
Realizar o seijinshiki, assim como as atividades frugais do dia-a-dia, não é resgate de tradições. Em Mombuca, tudo é feito como se estivessem no Japão. “Lá nós também mexíamos com lavoura”, diz Toshikazu.
Sônia e Noboru Watanabe moram em Fuji há dois anos e meio. Vieram para o Brasil só para o evento. “É especial porque é a única filha, e é coisa aqui de Mombuca”, justifica Noboru.
Futuro
As crianças de Mombuca aprendem japonês antes do português. Mas a língua não é garantia de que permaneçam na colônia quando mais velhos. “Saber japonês ajudou muito, lá no Japão”, diz Satoe.
Um terço dos jovens adultos do local se tornaram dekasseguis. “Falta gente até para as atividades coletivas. Mas os jovens acham que lá é mais chique”, brinca Toshikazu, cujos quatro filhos já moraram em seu país. Dois ainda continuam no Brasil.
Samurai, guarda-costa de Hirohito e amante do Brasil
O seijinshiki não termina com a apresentação dos jovens de 20 anos. A cerimônia só está completa com a homenagem aos membros da comunidade que fizeram 90 anos. Os idosos têm lugar de destaque. O segundo homem mais velho da colônia é Hatoshi Kobayashi, de 91 anos.
Seu Hatoshi lê diariamente. Muitos de seus livros abordam histórias de samurais. Ele mesmo descente desses lendários homens que serviam a seus senhores. Os samurais deixaram de existir como classe social no século 19. Ri quando questiono se a postura de um samurai seria exemplo nos dias de hoje.
“Para conseguir sucesso como samurai, hoje, seria muito difícil”, responde. Hatoshi não fala português. Conversa com a repórter por intermédio da nora Toshiko. Pede a ela que me pergunte se sei da guerra que o Japão travou com os Estados Unidos, na Segunda Guerra. Hesito em falar de Hiroxima, arrisco, então, sobre o ataque a Pearl Harbor, em 1941. Ele balança a cabeça, firme.
Hatoshi era oficial da Marinha. Lutou desde a invasão à China, que teve início em 1937. Vivendo em alto mar, enviava o salário à esposa, Kimiko, que ficara em Nagano. Trocavam cartas, eram assuntos curtos e objetivos, como “está tudo bem”. Ele normalmente era destacado como guarda-costa de Hirohito, quando o imperador visitava os navios de guerra.
De tudo o que viveu, diz que a educação é que muda o mundo. “Desejo que estudem os antepassados e tirem coisas boas para si”. Hatoshi me pergunta o que acho de seu povo. Aponto disciplina e persistência, entre tantos aspectos admiráveis. “Estou vendo que o Brasil ainda será o primeiro do mundo, e tenho orgulho de estar aqui”.
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/62852/sol-nascente-no-primeiro-dia-do-ano.html
Além do nome, que é indígena, nada em Mombuca parece brasileiro. O bairro rural de Guatapará remete aos remotos campos do Japão, daqueles que se vêem em filmes.
Em meio a plantações diversas, flores de lótus denunciam a presença de orientais. Mas é do portão das propriedades para dentro que se tem certeza disso. Às nove da manhã do dia primeiro de janeiro, as famílias estão acordadas há horas. O dia será cheio. Antes do almoço, serão duas celebrações que quase não existem no país. Uma em casa, outra na Associação Agro-Cultural e Esportiva.
Ano novo
Na casa dos Kobayashi, mãe e filhas preparam a refeição especial para o shoogatsu, a comemoração do ano novo. É uma casa bem ao estilo japonês, com alguns quartos de tábua, e cama no chão.
Os preparados de legumes e algas já estão dispostos como manda a tradição: em grupos de cinco ou sete variedades. “Nunca quatro, porque esse número, o shi, também significa morte”, explica Satoe, de 30 anos, a filha mais velha. Há 13 anos no Japão, chegou faz poucos dias.
Depois de servido o saquê, uma prece e algumas palavras de seu Toshikazu, pai de Satoe, dão boas vindas ao novo ano e desejam sorte. “Minha família não faz essa cerimônia. Na minha rua, só têm duas famílias japonesas, não temos esse contato como aqui, é tudo misturado”, compara o paulistano Michael Adeaniya, de 30 anos, namorado de Katsue, a mais nova.
Descendente de japoneses, só aprendeu a língua dos antepassados nos oito anos em que morou no Japão. “Aqui eles já aprenderam desde cedo, antes da escola”, diz. “É bom manter esses costumes. Ajuda a disciplinar”.
Maioridade
Seu Hastoshi, o avô, de 91 anos, faz sinal de agradecimento com as mãos e levanta-se. Ele, o filho e a nora, Toshiko, se apressam. Vão à associação, onde ocorrerá o seijinshiki, a cerimônia de maioridade. Para os japoneses, ela chega aos 20 anos. Nove jovens, entre moços e moças, serão apresentados à comunidade em sua maioridade.
As meninas usam quimono e os meninos se enfiam garbosos em ternos e gravatas.
Um século depois da vinda do Kasato Maru, o primeiro navio com imigrantes japoneses, o seijinshiki é raro em terras brasileiras.
No Japão, onde é comemorado na segunda semana de janeiro, os jovens não o levam com tanta seriedade, conta Satoe. Mas, em Mombuca, o rito é seguido à risca. “Todo mundo espera que a gente faça. Os jovens também gostam”, assegura Catarina Saito, de 20 anos. Uma das moças da cerimônia é loira, de olhos claros. “É casada com um japonês”, explica Kizuki Nitta, vice-presidente da associação.
A maioria dos jovens de Mombuca é da primeira geração de suas famílias a nascer no Brasil. A colônia surgiu em 1962, numa iniciativa do governo japonês. Os mais velhos se instalaram por aqui quase na “maioridade”, como Toshikazu, que chegou com 19 anos, em 1963. “Fomos a 14ª família da colônia”.
Realizar o seijinshiki, assim como as atividades frugais do dia-a-dia, não é resgate de tradições. Em Mombuca, tudo é feito como se estivessem no Japão. “Lá nós também mexíamos com lavoura”, diz Toshikazu.
Sônia e Noboru Watanabe moram em Fuji há dois anos e meio. Vieram para o Brasil só para o evento. “É especial porque é a única filha, e é coisa aqui de Mombuca”, justifica Noboru.
Futuro
As crianças de Mombuca aprendem japonês antes do português. Mas a língua não é garantia de que permaneçam na colônia quando mais velhos. “Saber japonês ajudou muito, lá no Japão”, diz Satoe.
Um terço dos jovens adultos do local se tornaram dekasseguis. “Falta gente até para as atividades coletivas. Mas os jovens acham que lá é mais chique”, brinca Toshikazu, cujos quatro filhos já moraram em seu país. Dois ainda continuam no Brasil.
Samurai, guarda-costa de Hirohito e amante do Brasil
O seijinshiki não termina com a apresentação dos jovens de 20 anos. A cerimônia só está completa com a homenagem aos membros da comunidade que fizeram 90 anos. Os idosos têm lugar de destaque. O segundo homem mais velho da colônia é Hatoshi Kobayashi, de 91 anos.
Seu Hatoshi lê diariamente. Muitos de seus livros abordam histórias de samurais. Ele mesmo descente desses lendários homens que serviam a seus senhores. Os samurais deixaram de existir como classe social no século 19. Ri quando questiono se a postura de um samurai seria exemplo nos dias de hoje.
“Para conseguir sucesso como samurai, hoje, seria muito difícil”, responde. Hatoshi não fala português. Conversa com a repórter por intermédio da nora Toshiko. Pede a ela que me pergunte se sei da guerra que o Japão travou com os Estados Unidos, na Segunda Guerra. Hesito em falar de Hiroxima, arrisco, então, sobre o ataque a Pearl Harbor, em 1941. Ele balança a cabeça, firme.
Hatoshi era oficial da Marinha. Lutou desde a invasão à China, que teve início em 1937. Vivendo em alto mar, enviava o salário à esposa, Kimiko, que ficara em Nagano. Trocavam cartas, eram assuntos curtos e objetivos, como “está tudo bem”. Ele normalmente era destacado como guarda-costa de Hirohito, quando o imperador visitava os navios de guerra.
De tudo o que viveu, diz que a educação é que muda o mundo. “Desejo que estudem os antepassados e tirem coisas boas para si”. Hatoshi me pergunta o que acho de seu povo. Aponto disciplina e persistência, entre tantos aspectos admiráveis. “Estou vendo que o Brasil ainda será o primeiro do mundo, e tenho orgulho de estar aqui”.
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/62852/sol-nascente-no-primeiro-dia-do-ano.html
Neta de escravos vive na ‘Colônia Preta’
Publicado em 18/11/07
Uma missa singular, hoje, celebra a Consciência Negra. É na capela do único remanescente da chamada Colônia Preta, formada por ex-escravos de Henrique Dumont, após a Lei Áurea, de 1888.
A propriedade localizada na zona rural de Cruz das Posses, em Sertãozinho, foi comprada por Honório Neres Sacramento, ex-escravo do pai de Santos Dumont. “Assim que rompeu a liberdade, seu Dumont deu um vintém para cada negro, e eles compraram tudo aqui”, conta Maria Conceição Roberta Faria, neta de Honório.
Ela aponta uma faixa de terra que se estende ao longe. Ainda no início do século passado, a área era ocupada por várias casas, todas de ex-escravos. Só ficou a de sua família. “Uns morreram, outros venderam, e acabou tudo”, diz.
Dona Maria vive praticamente com a mesma estrutura deixada pelo avô. Mora na casa erguida por ele, cozinha no fogão a lenha, tira água do poço. Ainda usa banha de porco, guardada no caldeirão, para fazer a comida. Da modernidade, tem televisão e geladeira.
Até o sino da igreja tem história. O primeiro veio da fazenda de Henrique Dumont, que era usado para chamar o povo na hora do almoço. “Mas aí rachou, foi para São Paulo e não voltou. Aí o Francisco Schmidt, que vinha aqui às missas, trouxe outro”, relata a proprietária, sobre o presente do “rei do café”.
Memória
A missa foi instituída por seu avô, antes dela nascer. Ele mesmo construiu a capela, em 1911, e mandou dedicar a São Benedito. “Ele e Nossa senhora da Conceição libertaram da escravidão”, justifica dona Maria, lúcida e simpática com os 90 anos que serão completados em oito de dezembro.
Há missa todo terceiro domingo do mês. Mas é em maio que a celebração ganha ares de festa, quando uma multidão de mais de 800 pessoas vai ao culto e à procissão de São Benedito.
Toda a família, que ultrapassa uma centena de pessoas se contar filhos, netos e bisnetos, se engaja na festança. Passam um dia todo amassando rosquinhas e confeitando um bolo de mais de um metro e meio, que normalmente leva a figura do santo negro, no enfeite.
Enquanto as mulheres fazem as massas, homens cuidam do forno. E os quitutes são servidos com café e chocolate, depois da missa de maio.
“Antes de morrer meu avô pediu para tomarmos conta da igreja. Graças a Deus, eu, meus filhos e meus netos estamos prosseguindo”, comenta dona Maria, que é responsável, ao lado da filha Mamede, por acender a vela principal da missa. “É a principal festa para a família, mais importante que o Natal”, revela Antonio, filho de dona Maria.
Até filhos “agregados” se encarregam de continuar as celebrações. É o caso do refratarista Deusdedite de Freitas Ferreira, que não descende de negros, mas de tão amigo, se considera filho de dona Maria, e herdeiro da tradição. “Isso representa muita coisa, quero levar para frente também, depois que ela se for.
A gente vai lutar para manter esse lugar, porque ajuda a preservar os valores”, afirma Ferreira, compadre de Antonio.
Missa
A missa de maio é especial não apenas pela aglomeração de fiéis, comenta o padre Cleber Augusto da Silva, pároco da igreja de Santa Cruz, em Cruz das Posses.
“Rezar missa num lugar como esse é uma das coisas mais gostosas, para um padre”, garante. De tanta gente, as pessoas acompanham a cerimônia até embaixo das árvores.
“Tem caixa de som lá fora”, cita o padre.Hoje é o dia da missa mensal. E por ser antevéspera do Dia da Consciência Negra, a família imagina que o assunto vai constar no sermão.
“No ano passado o padre falou de Zumbi”, recorda Antonio, filho de dona Maria. Padre Cleber diz que provavelmente irá comentar a data, em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder quilombola que morreu em defesa da liberdade.
“A família de minha mãe veio de Minas a pé, igual boiada”
A família de dona Maria Conceição, de Cruz das Posses, reproduz com orgulho as histórias contadas pela matriarca. Imaginam transformar o local em patrimônio histórico, no futuro.
O neto Andrei Albuquerque, de 30 anos, diz que ela sempre resgata os relatos do avô, seu Honório, e dos pais, Lourenço Roberto e Marcelina.“É um orgulho saber da própria história, que isso é um pouco da história também da região e do país”, afirma Albuquerque, professor universitário.
E dona Maria emenda os detalhes. “Meu pai ainda nasceu na escravidão. Foi comprado no Rio de Janeiro pelo Henrique Dumont”, diz. Já a família materna veio de Sabará, Minas Gerais.
“Vieram tudo a pé, igual a boiada”.As origens genealógicas de dona Maria refletem a proibição do tráfico internacional negreiro, em 1850. Sem receber escravos do exterior, as fazendas paulistas os “importavam” de outros estados.
“Passaram a receber escravos de Minas, da Bahia, do norte fluminense. Eles saíam dos lugares onde a produção econômica estava em baixa, para onde ela se elevava”, explica Carlo Monti, professor de história do Centro Universitário Barão de Mauá.
Pajem de Dumont
Dona Maria conta que seu avô ajudou a plantar cafezais. Um de seus tios era pagem do menino Alberto Santos Dumont, na fazenda que deu origem à cidade que leva o sobrenome do brasileiro que inventou o avião. “Quando o menino queria brincar de cavalinho, meu tio agachava para ele subir nas costas”, diz.
A comida era, basicamente, polenta com ora-pro-nobis, uma planta proteica. “Era servido no cocho. Só no Natal e na sexta-feira santa é que a comida era melhor”, diz a senhora. Dona Maria lembra de assuntos mais sofridos, como os castigos a chicote e arame farpado, e a obrigação sobre moças escravas, que deveriam se deitar com o senhor, antes de namorar com os escravos.
“Minha avó e minha tia contavam que apanhavam como cachorro, porque não esperaram para ir com o senhor. Desaforo, né?”, avalia.Na tranqüilidade de seu sítio, ainda conhecido pela população da cidade como Colônia Preta, dona Maria diz que os tempos já são outros. “Hoje ninguém aceita isso, não. Agora é tudo bastante livre”, afirma.
Sem quilombos
Apesar dos duros aspectos da escravidão, Antonio, filho de dona Maria, acha que não havia quilombos na região porque os senhores eram mais brandos que os das regiões onde os negros fugiam e formavam as comunidades.
A geografia, entretanto, não permitia o surgimento desses espaços na região, aponta Monti. “Não havia grandes extensões de mata nem formação geológica que permitissem o esconderijo”, explica. Os primeiros inventários de senhores com propriedades de escravos, na região, são de 1864.
Uma missa singular, hoje, celebra a Consciência Negra. É na capela do único remanescente da chamada Colônia Preta, formada por ex-escravos de Henrique Dumont, após a Lei Áurea, de 1888.
A propriedade localizada na zona rural de Cruz das Posses, em Sertãozinho, foi comprada por Honório Neres Sacramento, ex-escravo do pai de Santos Dumont. “Assim que rompeu a liberdade, seu Dumont deu um vintém para cada negro, e eles compraram tudo aqui”, conta Maria Conceição Roberta Faria, neta de Honório.
Ela aponta uma faixa de terra que se estende ao longe. Ainda no início do século passado, a área era ocupada por várias casas, todas de ex-escravos. Só ficou a de sua família. “Uns morreram, outros venderam, e acabou tudo”, diz.
Dona Maria vive praticamente com a mesma estrutura deixada pelo avô. Mora na casa erguida por ele, cozinha no fogão a lenha, tira água do poço. Ainda usa banha de porco, guardada no caldeirão, para fazer a comida. Da modernidade, tem televisão e geladeira.
Até o sino da igreja tem história. O primeiro veio da fazenda de Henrique Dumont, que era usado para chamar o povo na hora do almoço. “Mas aí rachou, foi para São Paulo e não voltou. Aí o Francisco Schmidt, que vinha aqui às missas, trouxe outro”, relata a proprietária, sobre o presente do “rei do café”.
Memória
A missa foi instituída por seu avô, antes dela nascer. Ele mesmo construiu a capela, em 1911, e mandou dedicar a São Benedito. “Ele e Nossa senhora da Conceição libertaram da escravidão”, justifica dona Maria, lúcida e simpática com os 90 anos que serão completados em oito de dezembro.
Há missa todo terceiro domingo do mês. Mas é em maio que a celebração ganha ares de festa, quando uma multidão de mais de 800 pessoas vai ao culto e à procissão de São Benedito.
Toda a família, que ultrapassa uma centena de pessoas se contar filhos, netos e bisnetos, se engaja na festança. Passam um dia todo amassando rosquinhas e confeitando um bolo de mais de um metro e meio, que normalmente leva a figura do santo negro, no enfeite.
Enquanto as mulheres fazem as massas, homens cuidam do forno. E os quitutes são servidos com café e chocolate, depois da missa de maio.
“Antes de morrer meu avô pediu para tomarmos conta da igreja. Graças a Deus, eu, meus filhos e meus netos estamos prosseguindo”, comenta dona Maria, que é responsável, ao lado da filha Mamede, por acender a vela principal da missa. “É a principal festa para a família, mais importante que o Natal”, revela Antonio, filho de dona Maria.
Até filhos “agregados” se encarregam de continuar as celebrações. É o caso do refratarista Deusdedite de Freitas Ferreira, que não descende de negros, mas de tão amigo, se considera filho de dona Maria, e herdeiro da tradição. “Isso representa muita coisa, quero levar para frente também, depois que ela se for.
A gente vai lutar para manter esse lugar, porque ajuda a preservar os valores”, afirma Ferreira, compadre de Antonio.
Missa
A missa de maio é especial não apenas pela aglomeração de fiéis, comenta o padre Cleber Augusto da Silva, pároco da igreja de Santa Cruz, em Cruz das Posses.
“Rezar missa num lugar como esse é uma das coisas mais gostosas, para um padre”, garante. De tanta gente, as pessoas acompanham a cerimônia até embaixo das árvores.
“Tem caixa de som lá fora”, cita o padre.Hoje é o dia da missa mensal. E por ser antevéspera do Dia da Consciência Negra, a família imagina que o assunto vai constar no sermão.
“No ano passado o padre falou de Zumbi”, recorda Antonio, filho de dona Maria. Padre Cleber diz que provavelmente irá comentar a data, em homenagem a Zumbi dos Palmares, líder quilombola que morreu em defesa da liberdade.
“A família de minha mãe veio de Minas a pé, igual boiada”
A família de dona Maria Conceição, de Cruz das Posses, reproduz com orgulho as histórias contadas pela matriarca. Imaginam transformar o local em patrimônio histórico, no futuro.
O neto Andrei Albuquerque, de 30 anos, diz que ela sempre resgata os relatos do avô, seu Honório, e dos pais, Lourenço Roberto e Marcelina.“É um orgulho saber da própria história, que isso é um pouco da história também da região e do país”, afirma Albuquerque, professor universitário.
E dona Maria emenda os detalhes. “Meu pai ainda nasceu na escravidão. Foi comprado no Rio de Janeiro pelo Henrique Dumont”, diz. Já a família materna veio de Sabará, Minas Gerais.
“Vieram tudo a pé, igual a boiada”.As origens genealógicas de dona Maria refletem a proibição do tráfico internacional negreiro, em 1850. Sem receber escravos do exterior, as fazendas paulistas os “importavam” de outros estados.
“Passaram a receber escravos de Minas, da Bahia, do norte fluminense. Eles saíam dos lugares onde a produção econômica estava em baixa, para onde ela se elevava”, explica Carlo Monti, professor de história do Centro Universitário Barão de Mauá.
Pajem de Dumont
Dona Maria conta que seu avô ajudou a plantar cafezais. Um de seus tios era pagem do menino Alberto Santos Dumont, na fazenda que deu origem à cidade que leva o sobrenome do brasileiro que inventou o avião. “Quando o menino queria brincar de cavalinho, meu tio agachava para ele subir nas costas”, diz.
A comida era, basicamente, polenta com ora-pro-nobis, uma planta proteica. “Era servido no cocho. Só no Natal e na sexta-feira santa é que a comida era melhor”, diz a senhora. Dona Maria lembra de assuntos mais sofridos, como os castigos a chicote e arame farpado, e a obrigação sobre moças escravas, que deveriam se deitar com o senhor, antes de namorar com os escravos.
“Minha avó e minha tia contavam que apanhavam como cachorro, porque não esperaram para ir com o senhor. Desaforo, né?”, avalia.Na tranqüilidade de seu sítio, ainda conhecido pela população da cidade como Colônia Preta, dona Maria diz que os tempos já são outros. “Hoje ninguém aceita isso, não. Agora é tudo bastante livre”, afirma.
Sem quilombos
Apesar dos duros aspectos da escravidão, Antonio, filho de dona Maria, acha que não havia quilombos na região porque os senhores eram mais brandos que os das regiões onde os negros fugiam e formavam as comunidades.
A geografia, entretanto, não permitia o surgimento desses espaços na região, aponta Monti. “Não havia grandes extensões de mata nem formação geológica que permitissem o esconderijo”, explica. Os primeiros inventários de senhores com propriedades de escravos, na região, são de 1864.
Garotos perdidos na noite
Os garotos de programa dominam o centro de Ribeirão Preto. Pacíficos, simpáticos, eles revelam o principal quesito para quem quer ganhar a vida na rua. Diferentemente dos gogo boys, quem está na calçada não precisa exibir beleza de revista - embora um deles seja compatível com o Reynaldo Gianecchini. Garantia de ganha-pão, na rua, é servir os clientes com um bom dote.
Publicado no jornal A Cidade em 11 de novembro de 2007:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/60982/garotos-perdidos-na-noite.html
Publicado no jornal A Cidade em 11 de novembro de 2007:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/60982/garotos-perdidos-na-noite.html
Babá por um dia
Como sempre ocorre quando me empolgo, aceitei de sorriso aberto entrar numa fria. Teria de passar um dia como babá para relatar depois. Como não aceito osso pela metade, ainda passei por recrutamento, com direito a teste de personalidade. Talvez eu precise de análise.
Primeira parte:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/68455/reporter-x-bebe-baba-por-um-dia.html
Segunda parte:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/68421/bebe-e-reporter-se-entendem-quase.html
Primeira parte:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/68455/reporter-x-bebe-baba-por-um-dia.html
Segunda parte:
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/68421/bebe-e-reporter-se-entendem-quase.html
A paz nas favelas, segundo o crime
Última de uma série de reportagens sobre as favelas de Ribeirão Preto, a matéria traz entrevistas com dois traficantes - uma delas feita em boca-de-fumo. Correria, 25, conta como a ordem se constitui, entre os moradores e o crime.
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/67874/a-paz-nas-favelas-segundo-o-crime.html
http://www.jornalacidade.com.br/noticias/67874/a-paz-nas-favelas-segundo-o-crime.html
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